Debaixo dos fios de algodão da camisa a pele sente o calor em cada gota de suor que desliza pelo torso. Se chovesse agora os fios e a pele acolheriam gotas de chuva, límpidas e frescas. Infelizmente, essas gotas logo seriam rejeitadas pela maldita evaporação. E se a chuva viesse forte e gelada como uma cachoeira? Exterminaria o calor, a sede e a ameaça de rodízio de água que atormenta a cidade.
O verão é a estação dos amantes – isso mesmo, os amantes suam! Portanto, suar é amar! A lascívia nos toma como as unhas vermelhas que rasgam a carne em um frêmito de paixão. Somos vítimas. Somos vítimas do que nos consome. Ora são os raios de Sol que queimam o coro cabeludo. Ora são nossos instintos que nos empurram, ou melhor, nos arremessam vertiginosamente para o poço da insensatez.
E o que nos custa um pouco de insensatez num mundo dito racional (ou seria moral?)? Custam alguns minutos que renderam memórias daquele tipo que reverberará docemente numa tarde preguiçosa há alguns anos dali. Concordo que há casos em que a memória é nossa inimiga, mas não em um dia de verão em que pensar não deve ser a prioridade. As cores dos tecidos e as formas que estas tomam nos corpos expostos na rua... As cores que inundam meu olfato de perdigueiro. E eu vejo o vento golpeando impiedosamente a moral ao insistir tanto contra os cabelos soltos das garotas, denunciando mulheres dos nossos sonhos.
Sento em uma mesa para sentir o mundo e deixar os elementos levarem meus pensamentos. A garçonete vem a mim em uniforme grosseiro e sem cor. Perco o fio da meada. Deixo de sentir o calor. Ofendo-me amargamente com a interrupção. Preciso aquecer-me, sentir de novo. – Traga-me um café muito quente, por favor!